sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Abaçaí - Sussurro da Mata

Um comentário
((Escrevi esse conto para uma seletiva de contos que participei no meio do ano. O tema era "Conto de Terror", gênero no qual nunca me arrisquei antes. Para falar a verdade, nunca li livros de terror (com exceção do Demonologista que, convenhamos, é horroroso. ) nem tenho o hábito de ver filmes dessa temática, o que tornava meu mundo de referências limitadíssimo.

Para ajudar, tínhamos alguns elementos que precisavam ser trabalhados na trama, como a presença de um animal que precisava resolver um conflito, os protagonistas precisavam ser índios e tinha de ter dois irmãos que se envolveriam em dada situação.

Acabou que escrevi tudo numa madrugada, mas ainda sim foi bem divertido explorar uma cultura que não conheço em um gênero do qual não tenho referências. Devem existir alguns erros de escrita na linguagem tupi, mas fui até onde a pesquisa de uma madrugada permitiu. No futuro, espero poder explorar melhor essa cultura, em um mundo de fantasia, bem longe do terror haha.))


Sussurro da Mata

Laura Ribeiro
                                   
– Vem Potytínga, a festa vai começar!
– Depois, Tatamiri. Avisa mamãe que vou depois.
            Ele ainda ficou ali por mais algum tempo, esperando para ver se eu mudava de ideia. Acenei pra que fosse embora logo. Não ousaria contradizer sua irmã mais velha.
– Vai também, Kûarasý. Se comer mais pitanga vai acabar virando uma. – Seus olhos pretos arregalaram como duas jabuticabas. Era novo demais para falar, mas entendia tudo o que dizíamos sem dificuldade. – Os passarinhos vão gostar de uma pitanga grande e gordinha como você. – Sem pestanejar, Kûarasí cuspiu as três frutas que tinha na boca e saiu em disparada atrás de nosso irmão, voltando para a festa que começava na aldeia.
Cairê já brilhava no céu, iluminando a noite e dando espaço para as danças que começavam no ritmo da música. Era noite de celebração do Deus Rudá, mas eu tinha coisa mais importante pra fazer do que me preocupar com a geração de filhos.
– Tu vieste... – O farfalhar da mata deixou que uma voz docemente familiar chegasse por trás de mim. Estava entre as folhagens, onde eu não podia vê-lo.
– Você disse que tinha uma surpresa para mim? – Eu não queria soar ansiosa, mas a verdade é que nada mais ocupava minha mente desde a promessa de meu amigo sem nome. Conheci-o há alguns dias. Uns dois ou três, não tenho certeza, só sei que já era o bastante para preferir sua companhia à dos anciões da aldeia, com toda aquela história de ter filhos e arranjar um guerreiro logo.
– E eu já menti pra ti? – Interrompeu-me o pensamento com sua voz melodiosa, e logo as árvores se afastaram, dando espaço para que uma enorme luz surgisse da terra, ondulando em formas que logo animavam um corpo à minha frente. – Vem comigo, Potytínga.
Eu fui.
Segurei sua mão quente e deixei-me levar pelo aperto suave em minha pele. Sem nome não tinha rosto, nem cor, mas era quem me entendia na tribo.
– E tem mesmo pássaros brilhantes aqui na floresta? – Ele não respondeu, sorrindo com a alma e dançando à minha frente.
Não sei por quanto tempo andamos. Não queria saber. Se fosse preciso cruzar a floresta até o mar, eu certamente o faria ao lado de sem nome. Era como se meu espírito chamasse o dele.
Mas logo paramos, e ali estávamos nós dois, em meio a uma clareira silenciosa. Cairê, a Lua, não nos alcançava ali com seus raios, mergulhando-nos no aconchego da mata fechada.
– Olha pra mim, Potytínga.
Obedeci ansiosa, e logo meus olhos se encheram com a imagem inebriante dos pássaros que circulavam a área. Eram brancos, tão puros que podia ver através de seus pequenos corpos. De seu interior saltava luz, deixando um rastro brilhante atrás da cauda ondulada.
– É lindo... – Sussurrei, surpresa demais para continuar falando. Meus olhos, agora acostumados à escuridão, acompanhavam aqueles seres fantásticos, deixando-me estática de tanta excitação. – E eles cant... – Antes que eu pudesse terminar de falar, ouvi um breve piado. Não vinha do alto, onde aqueles pássaros estavam, mas de baixo, bem perto de mim.
– Não, Potytínga! – Meu amigo chamou, mas não tive tempo de olhar. Aos meus pés repousava um pequeno pássaro cor de terra, piando fraquinho no meio das folhas.
Agachei-me para ajudá-lo, reparando na asinha quebrada. Não era difícil de consertar, só precisaria de...
– NÃO! – Um bufão quente soprou por trás de mim, jogando eu e o passarinho longe. Estiquei o braço e puxei-o para perto de mim, tentando nos proteger do vento que soprava violento.
– O-o que é...
– NÃO, Potytínga...! – Os pássaros que antes brilhavam no ar mergulharam em minha direção, esfacelando-se contra o ar e deixando chover sobre nós pequenos estilhaços cortantes. Senti minha pele rasgar, mas o medo que me tomava não dava tempo para a dor. – Eu disse... NÃO! Você tem de olhar pra MIM! – O ar tornou-se gélido, e logo meu corpo era jogado de um lado para o outro pela ventaria. Sem nome agarrou meu rosto e me puxou para perto dele.
Tentei me desviar, ainda confusa pelo que acontecia, e joguei-me do alto, mergulhando na lama. O filhote havia caído de meus braços, e eu não fazia ideia de onde estava.
– Para... MIM! – Gritou mais uma vez, e logo a floresta se apagou.
Ouvi um farfalhar muito próximo, e não pude mais lutar contra o torpor que subia-me as pernas.
Apesar de não enxergar nada à minha frente, podia sentir seus dedos gelados esgueirarem por minha pele, rasgando a superfície como espinhos maduros. Minha garganta fechou. O ar faltava, obrigando-me a inspirar repetidas vezes.
A sombra cresceu mesmo no breu em que havia me metido, e logo puxou meu rosto, envolvendo-me no vapor malcheiroso do pântano, forçando-me a encará-lo nos olhos vazios como noite sem estrelas.
– Potytínga... – Meu nome corria o vento e desaparecia à minha frente. Tentei fechar os olhos, mas o nada de sua expressão me mantinha paralisada. O medo fazia com que minhas pernas tremessem, e pensei que fosse cair, não fosse aquelas mãos gigantes que, aos poucos, erguiam-me no ar. – Estou esperando, Potytínga...
– A-abaçaí... Cadê o Sem Nome? – Sussurrei entre gorgolejos, tentando disfarçar os olhos marejados. Diante de mim erguia-se a figura horrenda do Abaçaí, uma entidade sombria que tomava a alma de índios perdidos. Eu não podia acreditar nisso...
A figura riu, enchendo o ar com uma gargalhada pesada.
– Já ouviste falar de mim...
– E-eu não tenho medo! – Gritei. Minha voz falhou, mas impediu que a primeira lágrima escorresse.
– Então você sabe o que eu quero... – Ele falava devagar, arrastava as palavras, como se pudesse farejar todo o desespero que eu tentava esconder.
– Eu não tenho nada pra você. Me deixa ir!
Pisquei uma vez, e tive a impressão de ouvir um trovão vindo de longe. A figura recuou, largando-me no chão, mas voltou em seguida, pressionando seu corpo disforme sobre minha cabeça. Tentei levantar, mas seu peso sufocava-me na terra.
– Tupã não virá. – Ele grunhiu entre risos abafados. – Tua Añã, tua alma, já é minha...
– Não! – Cedi ao medo, e comecei a gritar desesperada. – Q-qualquer coisa, mas minha alma não... – Minha boca estava inundada pela lama, e folhas já me machucavam os olhos quando Abaçaí decidiu puxar-me novamente para o alto.
– Qualquer... coisa? – Sua voz grave fazia meu peito apertar, e era como se algo comprimisse dentro de mim. – Potytínga... – A maneira asquerosa como pronunciava meu nome fizera-me arrepender do pedido no instante seguinte. – Dá-me o sangue do teu sangue... Corta-lhes a garganta e traz para mim. Enlameia na lágrima dos teus irmãos.
– O-o quê?! Isso... isso não! – Agarrou-me novamente pelo pescoço e colou os lábios apodrecidos na lateral do meu rosto. – Isso não!
– Escuta, Potytínga.... Dá-me a carne dilacerada de teus irmãos. Ou voltarei por tua Añã. Até lá, cada fruta que provares dessa floresta se transformará em um verme a provar-te por dentro. Cada gota que usares para molhar os lábios será ácido a corroeres tua carne. E cada segundo que respirares na presença de teus irmãos, será um novo dia de tormento em tua vida.
            Tentei responder, mas o choro convulsivo tomou-me de súbito, e logo ele desapareceu, deixando um segundo trovão soar mais próximo.
Tupã não havia chegado a tempo... e agora eu tinha um acordo com Abaçaí.
...
Despertei na manhã seguinte do lado de fora da mata. Meu estômago grunhia como um filhote de porco e, ao meu lado, estava o passarinho de asa quebrada.
– Não foi um sonho...
– O que você ta falando aí, Potytínga?
Levantei em um salto, escondendo o pássaro na faixa da cintura. Tatamiri e Kûarasí estavam parados à minha frente, encarando-me à espera de uma resposta. Tentei dizer qualquer coisa, mas fui impedida por um súbito calor que me subiu o corpo. Senti algo coçar na minha nuca e logo rastejar para meu ouvido.
Dá-me a carne dilacerada de teus irmãos...” O sussurro rasgou minha pele e parou dentro da cabeça, pressionando meus olhos para fora do corpo. “Dá-me...”
– Nada! – Gritei enquanto puxava ar. – Não é nada, seus filhotes de curió! Voltem pra aldeia!
– Nem pensar. Já viu a quantidade de fruta que ta dando na mata? Só um bobão deixaria pra lá. Vem Tatamiri, vamos comer. – Saíram correndo em direção à mata, sem me dar tempo para reagir. A imagem de Abaçaí ia e voltava diante de meus olhos, e o arrepio na nuca não parava de me incomodar.
Eles estão aí, Potytínga... Aproveite a chance...”
– Não entrem a... – Um choque rasgou minhas costas, fazendo com que meu corpo dobrasse no chão repetidas vezes.
“A cada segundo que respirares... será um novo dia de tormento...”
Tentei responder, mas a voz soava dentro da minha cabeça, em algum lugar que eu não podia alcançar.
Anda, Potytínga... Serve-me o sacrifício...”
– Eu não vou... – Minha coluna dobrou, lançando-me sobre a lama com uma violência incomparável.
Vai...”
Antes que me desse conta, meus pés já se agitavam, levando-me para o interior da floresta. Senti meu espírito deslocar da carne, e logo eu subi.
Vai...”
Eu não sabia, exatamente, onde estava. Meus olhos ainda enxergavam a mata, minha pele ainda molhava com o orvalho das plantas, mas meu espírito não estava ali dentro. Era como se eu me tornasse espectadora das minhas próprias ações.
– Vou. – Minha boca falou. Não era eu. O que estava acontecendo? Tentei me debater em vão. O corpo não se mexia. Meu espírito se agitava em uma casca que se recusava a obedecer os meus comandos, e agora corria em disparada pela mata densa.
– Kûarasý! – Minha voz gritava, e eu queria afogá-la, mas não tinha força para agir. Não tinha sequer consciência de meu próprio corpo agora, o que poderia fazer?
– Não me enche, eu não vou voltar. – Meu irmão estava escorado em um galho. A boca cheia de pitanga.
“Vai...”
– NÃO! – Tentei gritar, mas tive a garganta subitamente cortada, lançando as palavras pelos ares. Uma torrente escaldante logo mergulhou no meu espírito, prendendo-me na própria carne que eu não mais controlava.
O meu sacrifício...”
Meu corpo ia caminhando na direção de Kûarasý, os olhos fixos no seu rosto sujo. Tentei me libertar, mas havia algo muito mais pesado mantendo-me inerte. Não... Meu irmão!
“Mata!”
Logo minhas mãos fecharam-se ao redor do seu pescoço. Ele tentou lutar, mas minhas pernas prendiam seu corpo de criança no chão. Os dedos massacravam a pele fina, comprimindo as veias sem qualquer piedade. Meu rosto ria. Não era eu... Não podia ser eu...
“Mata!”
Os olhos de meu irmão começavam a sair de órbita. Ele chutava o ar sem qualquer resultado, e logo parou. Dos lábios escorria uma fina baba transparente, lançando a língua suja de fruta pra fora da boca. Tentei abraçá-lo, mas meu corpo se recusava a mover.
Foi num gesto súbito que eu pude recuperar as forças, desvencilhando-me do desespero para retornar à carne.
– K-Kûarasý... – Sussurrei, finalmente retornando a mim. A floresta enegreceu. Abaixei-me sobre seu corpo, incapaz de acreditar no que via.
“Está morto.”
Estava morto.
“Você o matou.”
Eu o matei.
“ Você fez sua escolha. Matou para não ter que sofrer.”
Não...
Eu o matei.
Meu corpo tremia, embaçando a visão com as lágrimas que começavam a saltar. Não era medo o que eu sentia, mas pavor, de mim mesma.
“Você matou, Potytínga.”
O sussurro envolvia-me lentamente, acariciando minha pele com seu toque gélido.
“Matou.”
Senti quando tudo se apagou. Minha respiração pesava entre soluços que eu não tinha o direito de proferir. Tentei tocar o rosto de meu irmão, mas ele não estava mais ali.
Eu estava sozinha.
“Não tem mais ninguém.”
Não...
“Só eu e você.”
A sombra ergueu-se de súbito por minhas costas, mergulhando com violência sobre mim. Meu corpo tremeu, e logo fui invadida por cenas de desespero e raiva. Eu havia matado.
“Vamos...”
Apesar de não poder vê-lo, senti sua mão erguer-se na direção da minha. Tentei levantar os olhos, mas estavam demasiadamente pesados pelas bolsas que se formavam na parte inferior.
Suspirei, e foi como se meu espírito finalmente desistisse. Soltei o corpo, mas, antes que pudesse cair, um longo piado cortou o ar à minha frente, fazendo com que eu despertasse do transe.
De minha faixa saltou o pássaro, agora vertido em chamas, entoando um canto suave, enchendo o ambiente de luz.
Abaçaí surgiu em sua forma espectral, tal qual fumaça em meio a noite, rangendo o corpo etéreo por entre as folhagens pesadas do orvalho.
Notei quando ele saltou, esquivando-se do mergulho do pássaro em chamas.
– Yorixiriamori...? – Sussurrei deslumbrada com sua beleza. Era um Deus pássaro há muito não visto, exilado pela inveja dos próprios homens.
Ele cantou alto, e era como se, no meu peito, uma luz forte vibrasse. Abaçaí não gostou, recuando por entre as sombras. Seu grito grave tremeu a terra, mas estava longe de afetar o pássaro.
Encarei-o, e só então me dei conta da disformidade de seu ser. Os olhos múltiplos saltavam por entre sombras, como se fosse uma aranha antropomorfizada, etérea entre restos de gente.
Antes que eu pudesse pensar em correr, ele saltou sobre mim. O rosto, antes vazio, abriu-se em uma boca infestada de dentes pontiagudos, e roçou por minha pele, levantando-a com cortes consecutivos.
Gritei alto, mas não conseguia lutar. Seus dedos colaram no meu rosto e começaram a torcer minha cabeça.
De minha boca saltava a bile do vômito que não vinha, e em minha mente dançava a imagem do irmão que eu matara. Seus dedos entravam agora por baixo de meus olhos, erguendo-os sem descolá-los da órbita. O gélido de suas mãos logo alcançou o interior de minha cabeça, rompendo-se em uma dor aguda.
– Yori... – Tentei falar, mas a língua pendia inerte para fora de minha boca. – xi...
O pássaro ouviu.
Com um jato de luz, projetou-se sobre mim explodiu em um clarão.
“Vem... Vamos juntos.”
Não era mais Abaçaí quem falava, mas o pássaro de Yorixiriamori.
Eu sabia o que tinha de fazer.
Encarei o monstro com o que me restava de força e, concentrando as chamas que surgiam em meu peito, empurrei meu corpo em sua direção. Colidimo-nos e, nesse ponto, algo explodiu dentro de mim. Tomando-nos de luz e vazio ao mesmo tempo.
“Vamos...”
...

Levantei em um salto. Estava novamente na oca.
Arrastei-me para fora, desvencilhando da palha que cobria a porta, e me deparei com os mais velhos se arrumando para o festival da Lua.
Foi.... Foi tudo um sonho?
Encarei minhas mãos trêmulas.
 Um vento leve soprou por trás, e logo senti algo subindo por minhas costas.
“ Potytínga...”
Meu corpo enrijeceu. Era real.
“ Nosso acordo está quebrado... mas cada vez que tu, ou qualquer ser que pisar sobre essa Terra, adormecer, eu estarei lá. Ficarei ao teu lado, até que em teus sonhos mates alguém. E mates. E mates. E mates.”
Meu peito rugia com as batidas aceleradas.
“Estarei esperando até que, enfim, decidas matar-te.”
Suspirei.
Não havia mais luz à minha frente.
Eu havia matado.

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