domingo, 11 de janeiro de 2015

Conto: Madame Fortuna

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      O Sol castigava-me as costas sem cerimônia alguma, expondo a pele latejante sob o calor doentio do verão. Tentei puxar ar fresco, mas meu corpo logo inundou-se com a ressalga pesada que vinha do mar. Estávamos presos na maresia há, pelo menos, três dias, sem previsão alguma de novos ventos que nos levassem para longe dessa mesmice frouxa a que éramos submetidos. Fazíamos racionamento de água, comida e tudo mais que aparecesse pelo caminho. 

– O que deveríamos fazer com o marinheiro bêbado? – O canto começava na ponta superior do convés e vinha descendo como que levado pela fraca brisa que desejávamos que soprasse.

– O quê? – Um segundo membro da tripulação gritou, seguindo o ritmo oscilante do canto.

– O que deveríamos fazer com o marinheiro bêbado?

– Bêbado! Tão cedo? – Carlile, um dos tripulantes mais velhos de Santa Dorotheia, cantava alto com sua voz grave.

– O que deveríamos fazer com o marinheiro bêbado?

– Fazê-lo caminhar pela prancha! – O canto fora subitamente interrompido por Fortuna, digo, Madame Capitã Fortuna. Sua voz forte cortava o ar e cingia o coração sem errar o alvo. – Tão cedo! – E sorriu, voltando a cantar.

    Sua presença forte era bálsamo consolador. Observei-a por alguns segundos, absorto pela beleza quase divina daquela mulher. Se é verdade que as sereias saltam dos mares para tentar os homens, ela certamente deveria descender desses seres maravilhosos.

– Cante também, Pietro! – Gallahad, um homem já nos seus bons 60 anos, gritou para mim de cima do mastro, apontando com seu dedo torto.

– Acho que ele não sabe a letra. – Carlile tornou a falar, rindo enquanto agitava sua enorme pança. – Talvez possa entoar um dos cânticos de sua paróquia!

– Eu... não... – Gaguejei. Era o pior momento para isso, ainda mais diante daqueles homens habituados à dureza do caráter. Eu não era um deles. Vinha de West Sussex, padre católico, criado dentro da doutrina cristã, resgatado por um bando de piratas de um ataque violento da marinha francesa.

– Vamos, vamos. Voltem aos seus postos e deixem o novato em paz. – Mme. Fortuna interrompeu-os com um simples agitar das mãos e voltou-se em minha direção. Pisou forte com a bota recém-engraxada e agachou ao meu lado. – A menos que você esteja com saudades da fortaleza divina, novato. – Seus olhos escuros afrouxavam-me a coragem e de meus lábios escapavam apenas suspiros de consentimento.

– Madame já encontrou sua próxima presa. – O comentário venenoso escapou de trás de onde estávamos e, pela voz, deveria ser Downright, um rapazote de minha idade, próximos dos 25 anos, e com força de homem feito.

– Presa? – Ela perguntou, fixando aquelas írises devoradoras em meu rosto. Corei de súbito. Não eram sensações às quais eu estava acostumado. Abri a boca ansioso, buscando ar suficiente para reestabelecer a calma. – Pietro não resistiria nem por uma hora. – Ela sorriu mais uma vez antes de se levantar, e tive a impressão de ser puxado para cima. Sem dizer mais nada, afastou-se na direção da proa para reclamar sobre qualquer coisa e abandonou-me, confuso com minhas próprias reações.

    Suspirei em silêncio, deixando que no sopro delicado minhas memórias vagueassem de volta para mim. Há 21 dias eu havia sido trancado dentro da igreja com mais uma dezena de fieis. Os invasores estavam prontos para atear fogo na construção quando Mme. Fortuna chegou. Lá de dentro eu não pude ver muito, mas foi o suficiente para nunca mais me livrar daquelas imagens. Ela matava sem cerimônia alguma. Mesmo em terreno sagrado, estava certo de que Deus algum a ousaria desafiar. Com a mão direta, e empunhando uma espada longa, deslizava por entre as centenas de soldados que caiam inertes, um a um, aos pés.

    Não acreditei quando finalmente abriu os portões da igreja. Sua figura morena exibia olhos possessos de vitória a decorar os lábios vertidos em sorriso ligeiro. Tragou-me, e a violência fora tanta que precisei ajoelhar-me diante de sua figura. Que Deus me perdoe... mas, naquele momento, estava disposto a vender minha alma a qualquer entidade que fosse aquela mulher. E, na ânsia de reparar-lhe a benfeitoria à nossa paróquia, decidi segui-la e auxiliar no possível em sua jornada.
  
  Pensando agora, não sei por que razão aceitara-me em sua tripulação. Mas, como está no evangelho de Mateus: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã preocupar-se-á consigo mesmo.” 

– Capitã! – O grito uníssono alcançou meus ouvidos antes daquele brilho ardido que queimou-me a visão por alguns segundos.

    Pisquei na esperança de compreender o que se passava ali no navio, mas foi nesse instante que meu corpo foi brutamente lançado em direção ao mastro. O golpe violento da madeira contra minha costela fez com que eu perdesse o ar momentaneamente, mas a visão, ainda embaçada, começou a esboçar o quadro sanguinolento que se passava diante de mim.

    Dezenas, centenas, de soldados subitamente invadiram o convés e desandaram a atacar o que encontravam pelo caminho. De onde haviam vindo? Não havia tempo para reflexões. Agarrei-me ao mastro e pus-me de pé, ainda a passos variantes. 

– Rendam-se, vilões! (Em francês). – O grito estrangeiro bagunçava-me os sentidos, onde estaria a capitã? Corri os olhos para a prancha, e qual a minha surpresa ao encontrá-la ali, imobilizada por dois demônios de azul. 

Segurei a cruz que carregava próximo ao peito.

 A oração entoava em minha mente como um reflexo, dando-me forças para agir.

– Pai nosso, que vive nos céus... – Saltei para a frente. Os pés corriam mais rápido do que eu podia raciocinar, levando-me até a beira do navio.

– ...Santificado, seja o teu nome... – Sem tempo para pensar, cravei os dedos calejados em um pedaço solto da proa, arrancando a madeira com uma violência que eu jamais havia experimentado até então.

– ...Venha a nós, ao teu reino... – Os braços, dotados de extraordinária destreza, agitavam a madeira à frente de meu corpo, atraindo a atenção daqueles dois homens.

– ...E seja feita a tua vontade... – A expressão de surpresa em seus rostos não durou mais do que alguns poucos milésimos. No instante seguinte já avançavam em minha direção, abandonando Madame Fortuna.

– ...Assim na terra, como no céu. – Ergui a madeira, mirando em seus rostos. Não haveria como derrubar dois de uma vez, mas se pudesse levar pelo menos um comigo, talvez fosse o suficiente para Madame escapar...

– O pão nosso de cada dia, dai-nos hoje... – Fiz o movimento para baixo, mas, antes que pudesse acertá-los, vi-os cair inertes à minha frente. O sangue espirrou em meu rosto, e eu parei, assombrado pela súbita vitória.

–... e perdoa-nos de nossas ofensas, assim como... – Madame Fortuna ergueu-se, triunfante, por trás daqueles dois homens. Suas mãos cobertas de sangue revelavam as adagas que habitualmente escondia sob o casaco pesado de couro. Ela sorriu, melancólica, e inundou-me com aqueles olhos furiosos.

– ...perdoamos aqueles que nos ofendem... – O agitar do combate ainda podia ser ouvido por trás de mim, mas naquele instante meus olhos voltavam-se apenas para aquela mulher que se aproximava. Limpou o sangue de meu rosto com as costas das mãos e, com as sobrancelhas franzidas, apoiou o rosto sobre meu ombro.

– Não nos deixe cair em tentações... – O sussurro foi leve, dando-me tempo suficiente para traduzi-lo. O “Aqui não é o seu lugar” cochichado quase maternalmente soou como uma lâmina perfurante. Fria, doente e vil, doeu-me muito mais do que o tiro que cortou-me a lateral naquele instante.

– E livra-nos de todos os males... – Madame Fortuna tombou para trás. Protegera-me de um primeiro tiro, mas o segundo veio violento contra as minhas costas. Tive tempo de segurá-la antes que nossos corpos se separassem na queda em direção ao mar.

Minha mente embaçou... 

O óleo de almíscar que ela costumava passar antes de dormir inundou-me as narinas, e logo veio o gosto salgado do mar.

A morte lenta começara com seu cochicho...
Talvez ela mesma não tenha se dado conta de que meu lugar era, em verdade, onde ela estivesse...

Amei o próximo como a mim mesmo. E a Madame Capitã Fortuna acima de todas as coisas.

– Amém.

4 comentários :

  1. Este blog está uma graça e você escreve muito bem, dá para visualizar mentalmente o conto! Terá muitas obras publicadas um dia!

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